Sabotar Lula também é um plano da velha direita

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Lula e Plenário da Câmara dos Deputados (Foto: Agência Câmara | ABr)

Sabotar Lula também é um plano da velha direita

Há como escapar, sem ser obrigado a manter sempre cheio o bucho do centrão?

Por Moisés Mendes

Publicado em Brasil247 25 de maio de 2023

A linha majoritária da tentativa de compreensão do ambiente político, a partir do ponto de vista da velha direita, é a dos ‘pensadores’ e jornalistas com referências trazidas do antilulismo do século 20, com algum verniz do mercado financeiro do século 21.
E todos eles repetem, para desqualificá-lo, que Lula pensa o Brasil com a cabeça do seu primeiro governo iniciado em 2003.
Mas a velha direita que o acusa de atrasado pensa com as cabeças do que havia de pior desde o surgimento de Lula como opção de poder.
A palavra que define esse comportamento está gasta, quase podre, pelo uso abusivo da extrema direita.
Pensadores e jornalistas antilulistas, absorvidos pelo espírito do bolsonarismo, são os propagadores também das narrativas do fascismo.
Narrativa é a palavra dos perdedores. O alarde em torno da inviabilização do governo, que não teria o que fazer a não ser obedecer as ordens do centrão e da extrema direita, está no núcleo dos relatos.
A direita e as corporações de mídia alinharam-se ao fascismo para dizer que o governo Lula talvez nem comece. É a narrativa de maio.
Não são os humores da Faria Lima, que no fim vai se contentar com o arcabouço de Haddad e precisa ter um mínimo de racionalidade para que a oposição sistemática não inviabilize o país. Trata-se de dar corda ao discurso fascista de que Lula foi eleito, mas não pode se sentir governando.
Parte expressiva do jornalismo de direita abrigado nos jornais, que bateu em Bolsonaro porque seus patrões (na Globo, na Folha e no Estadão) eram inimigos do sujeito, reorganiza-se à direita da direita, com algumas camuflagens, nos grupos dedicados a sabotar o governo.
A ideia de que Lula está cercado, e de que não conseguirá se salvar se não mantiver sempre cheio o bucho do centrão, já contagia parte das esquerdas.
Lula teria que repetir o que Bolsonaro fez no final do governo, empanturrando uma base comprada com dinheiro grosso, para poder seguir em frente, em menos de seis meses no poder, mesmo que precariamente.
Ao invés de tentar expor e condenar a chantagem e defender a governabilidade, para que o país se livre das sequelas do bolsonarismo, a velha direita opta pela sabotagem de Lula.
É o clichê do escorpião montado no sapo. Lula salvou a velha direita de um segundo mandato de Bolsonaro, salvou a Globo e suas amigas, mas o escorpião precisa se reafirmar como escorpião, como fez com Dilma.
O esforço para expor Lula como um governante imobilizado nem se preocupa com o disfarce da denúncia da chantagem, porque a mídia também é aliada dos chantagistas.
Os jornalões, com uma força que alguns imaginavam que não teriam mais, apostam no impasse criado pelos sabotadores dentro e fora do Congresso, no Banco Central e onde estiverem.
Globo, Folha e Estadão são aliados também das big techs no reforço da estrutura fascista, que inclui todo tipo de grilagem e garimpo, e se aliam aos que, desde a derrota, só pensam em derrubar Lula ou, como segunda opção, mantê-lo manietado e fraco.
As cabeças da direita do século 20 são escravas da nova direita e da extrema direita, sem qualquer compromisso com a normalidade.
É a mesma estrutura que derrubou Dilma, não se comove com os sacrifícios de Marina Silva e Sonia Guajajara e investe no impasse, mesmo com o risco, mais adiante, de ruptura e impeachment.
Tudo para que esse Lula que veio com alguns tons ‘esquerdistas’ não governe, se não mantiver o centrão enfarado. A ideia vendida é a de que não há saída.
Mas Lula sabe um pouco mais do que Dilma e esteve 580 dias preso. Há como escapar, sem ser obrigado a manter sempre cheio o bucho do centrão?

Haveria, se o compromisso da velha direita fosse com o esforço pelo resgate da democracia, e não com a reconfiguração do antilulismo que criou Bolsonaro e tem hoje feições que a direita não teve antes, com esses olhos arregalados, em tempo algum.

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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