Pensar, mais do que existir, é resistir também

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Zélia Duncan

Cantora, compositora, musicista e atriz

Pensar, mais do que existir, é resistir também

Em meio a esses tempos claustrofóbicos, de águas que têm cheiros suspeitos e pronunciamentos pseudonazistas à luz do dia, não se pode ignorar, quando alguém que fala sua língua, te oferece espaço pra pensar e escrever

27 de janeiro de 2020, 10:10 h

Em meio a esses tempos claustrofóbicos, de águas que têm cheiros suspeitos e pronunciamentos pseudonazistas à luz do dia, não se pode ignorar, quando alguém que fala sua língua, te oferece espaço pra pensar e escrever. Pensar, mais do que existir, é resistir também. Pensar juntos em tempos de repressão e ódio é exercício de liberdade e amor. 

A internet está longe de ser um mar de rosas, não é? Muitas vezes parece só um abismo de espinhos e nada mais. Um lugar onde o recalque vira palanque, a inveja munição e as metralhadoras da violência cospem seu desejo de massacrar virtualmente ou não, pessoas e gramáticas. Vocês também, certamente, já constataram isso. Vocês que, por ventura, buscam informação e troca. A internet parecia ser a maravilha possível, ali, nas nossas mãos. Mas seu maior desafio, é justamente informar e comunicar, a meu ver. De um modo geral, as pessoas se informam pelo meio. O que chamávamos de “leitor de orelha de livro”, virou a regra. E pior, as “orelhas” de hoje que você lê na rede, podem e muitas vezes são falsas. A internet pode derrubar democracias, destruir amizades, cancelar biografias. E fora toda sordidez explícita, toda ameaça desvelada, você ainda enfrenta um falso “fogo amigo”, porque de amigo nunca teve nada. 

As pessoas com quem convivo ou esbarro por aí se mostram surpresas e um pouco deprimidas, especialmente nos dois últimos anos. Me sinto assim também, mas com ânsias de achar uma forma de lutar ao mesmo tempo. Tenho o privilégio de ser artista e a coragem pra dizer isso. Encontro no que faço alimento pra enfrentar o que nunca soube fazer. Falar de política, por exemplo. E lidar com as pessoas hoje em dia é motivo de um medo diferente, um medo que afasto todo dia, pra fazer minhas postagens, subir nos palcos, ou ir na esquina com as cachorras. E porque acredito naquela frase, “se você foge à possibilidade do soco, perde a possibilidade do beijo”. Mas é que algumas descobertas foram apavorantes, não é? Aquela amiga de infância, que não conseguia decidir entre um fascista e um professor, ela, que é professora! Aquela outra que parecia inteligente e viajada, começa a te agredir, só porque você fala em favor de Jean Wyllys, ela, que também é gay. 

Pra ser mais recente, outro dia descobri, que muita gente católica, tem horror ao papa Francisco. Fiquei estupefata! Eu, que não rezo fora do palco, acho esse homem corajoso e tinha certeza de que agora, estariam todos eles, ou a maioria, muito orgulhosos e felizes, por terem ali um homem que parece ser uma pessoa de carne e osso, que tem um olhar de gente pro mundo. Tudo bem que até eu preferia que ele não tivesse dado aquele tapa na mão da moça desequilibrada e desagradável, que o assustou, quando o puxou de repente. Não por achar errado ou certo, mas para que ele não tivesse aquela imagem o perseguindo, dando munição pra um monte de idiotas. Pessoalmente até gostei, confirmou pra mim sua humanidade. Mas o fundamentalismo nos invadiu dessa forma, porque as pessoas desejam esse poder “espiritual” sobre as outras, desde sempre, desde as Cruzadas, as guerras ditas “santas”, que são coisa do diabo chamado homem. Pois esse grupo espalha que Francisco é enviado do diabo pra acabar com a igreja. E não são pessoas politizadas, que questionam sua postura em relação à ditatura feroz, que aconteceu na argentina, o que é legítimo e importante. São carolas, que preferem a linha dura previsível de Bento XVI, que saiu da tumba outro dia, só pra defender o celibato. 

Comecei a escrever esse texto outro dia e de lá pra cá, Regina Duarte chamou uma pastora para ser sua “secretária adjunta”. Seja lá o que isso queira dizer, ou que tipo de ideias e conselhos vão trocar, não dá pra ter muitas esperanças. No Rio, estão querendo desalojar, ou talvez neste momento já estejam desalojando, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Será que falaram sobre isso, entre um noivado e um “amém”? Eu duvido, e você?

Não vejo a hora de falar mais de música, livros, concertos. Mal posso esperar pra trocar ideias alegres, discutir melhores maneiras de estar no mundo e não apenas tentar destrinchar e evitar mais quedas e desgraças. Não vejo a hora de não ter medo de acordar e constatar quais violências e ignorâncias que Bolsonaro, seus comparsas e familiares fizeram, ou estimularam que outros fizessem com o Brasil. 

Obrigada pelo convite, Brasil 247, já sou seguidora de vocês há tempos e fiquei feliz com a proximidade, preciso muito estar com pessoas que desejam pensar uma vida mais gentil e cidadã. De vez em quando, então, vou aparecer por aqui, pra tentar fazer isso, pra chorar um pouco no ombro de vocês, até que possamos também comemorar algumas coisas!

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