Mulher, mãe, machismo

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Mulher, mãe, machismo

Que no futuro próximo tenhamos o que comemorar no Oito de março. Por hora, apenas o avanço de movimentos como red pill — parte do machosfera. Socorro!

Por Inez Lemos

Publicado por Brasil 247 em 6 de março de 2023

No dia 8 de março denunciamos, escrevemos sobre opressão, violência contra a mulher. Berramos! Como ir à radicalidade da questão? Sabemos que muitos feminicídios são resultados de relações afetivas que se desfizeram. Geralmente o ex não aceita a separação e apela, esfaqueia, chuta, mata. À agressão subjaz frustração – amor negado, ataque de ciúmes, inveja ao saber que o corpo amado não o quer mais – possa, inclusive, estar se jorrando sobre um outro. Eis o Nó, os homens, grande parte é educada pra vencer. A disputa começa cedo – na escola entre tênis, celulares. Vivemos o mundo que transforma tudo em mercadoria. A mulher é vendida como pneu, sabonete. Seu corpo, de valor de uso passou-se a valor de troca. Ninguém gosta de perder nada, ainda mais objeto de grande fonte de prazer e benefício – cama e mesa. A dificuldade toda em aceitar uma separação reside na insuportável dor de socializar o objeto amado, desfrutado. O macho, dilacerado em sua ferida narcísica, mergulhado no orgulho e diante de sua fragilidade, recusa ser contrariado – passa ao ato. Machismo é isso, a criança desenvolve um mecanismo perverso de defesa diante das perdas. Faz birra, chuta e consegue o objeto reivindicado. A mãe, por ser ela quem mais tempo passa com o filho, tende a protegê-lo em excesso, chegando a ser obscenas algumas relações entre mãe e filho. Um show edipiano. Sem repensar como estamos educando os garotinhos, os fofos de hoje e cruéis de amanhã, dificilmente excluiremos do roteiro feminista a saga em que transborda sangue, revolta, injustiça. Facas, armas e punhais fazem parte do enxoval. A desconstrução da maldade exige revolucionar a forma de educar – menos competição e mais colaboração. Ensinar a socializar brinquedos, objetos de consumo – como aceitar as perdas. Aprender a suportar a dor – sofrimento ao se saber pior – aquele que nem sempre leva a melhor. Além dos aspectos que envolvem a educação dos filhos, devemos abordar a questão cultural. Normalizou-se que a questão da anticoncepção é  assunto de mulher, cabe a ela responsabilizar-se em evitar a gravidez. Toda criança só deveria vir ao mundo caso fosse desejada –  ocupar um lugar no desejo dos pais, senão, o risco de crescer com problemas psíquicos é imenso. Internaliza sentimento de rejeição e, provavelmente, irá apresentar vários sintomas. Melhor é facilitar o acesso a todos os métodos anticoncepcionais. A laqueadura deveria ser um direito de toda mulher que a desejar, independente de ter filhos ou não. A exigência de só ser permitida caso ela tenha dois filhos é exagero. Nem toda mulher quer ser mãe, cumprir com a função materna, principalmente num país em que poucos são os homens que cumprem com a função paterna. A paternidade irresponsável ja foi banalizada. Muitos nascem e crescem sem o nome do pai nas certidões. Os homens que não querem ser pais, dedicar ao filho, deveriam fazer vasectomia, não? Aliás, ela deveria ser melhor estimulada. Se somos conduzidos pelo inconsciente, há de incluí-lo na jogada. Quando a criança se sente abandonada pelo pai, pode desenvolver pulsão de morte, desejo de revolta. Ele não se envolve em crimes por acaso, no fundo deseja se automutilar –  matar e morrer. Amar o filho, filha, é condição fundamental na boa educação. Contudo, a maternidade deve ser uma escolha, não pode ser compulsória. Conhecemos bem as consequências de uma gravidez não desejada. Crianças na rua, abandonadas, estupradas pelo pai, padrasto, tio. Ser mulher num país machista é difícil, cumprir com a maternidade responsável, um desafio – o que mais temos são mães solo. É normal as obrigações da educação dos filhos  recaírem nas costas das mulheres, como também a condução da casa. Mulher, aquela que nasceu pra padecer no paraíso – sobrecarregada, cansada, desrespeitada, desqualificada. Mulher que gosta de cumplicidade na cama e na casa, amar e se sentir amada, ser feliz, é vadia, vagabunda. A elogiada é a que aceita a mortificação, se resigna diante do cruel desígnio de Deus.

Masoquista. Santa. Caso aprecie o bom sexo, gozar com tudo, puta! O prazer sempre foi tido como um direito, privilégio dos homens. Saravá. 

Sem romper a forma machista de educar filhos, filhas, pouco avançaremos. Crescem irresponsáveis, violentos, misóginos. No caso das filhas – submissas. Deixam explorarem a disposição feminina em cuidar, acariciar, amar. Desqualificam a mulher por medo, são frouxos diante de seu potencial de luta, trabalho e dedicação. Covardia, orgulho e ignorância geram agressões. Como o gostosão que passou o caminhão por cima da esposa, diante da filha pequena. Atitude exemplar daquele que aprendeu a realizar seus caprichos, custe o que custar – atendido em suas demandas. Ou, diante das recusas, guarda rancor por não tê-las realizado. Ressentidos, desorganizados interiormente, saem chutando, matando e morrendo. Basta! Chega de honrar pulsão de morte. Hospitais, presidios e cemitérios não suportarão tantos candidatos. 

Que no futuro próximo tenhamos o que comemorar no Oito de março. Por hora, apenas notícias como: “Misoginia nas redes – grupos extremistas ganham dinheiro ao praticar crimes contra as mulheres” (Globo, 5/03). Relatando o avanço de movimentos como red pill – parte do machosfera. Socorro!!

Inez Lemos

Psicanalista e autora de “Berro de Maria”, ed. Quixote.

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