Por que o PSDB está acabando e o PT está mais forte?

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Por que o PSDB está acabando e o PT está mais forte?

“O abandono da via democrática e a perda das bases de apoio na classe média levaram o PSDB à situação atual, apontada por Lula” por Emir Sader

Publicado por Brasil 247 em 2 de junho de 2022

O PT e o PSDB protagonizaram as maiores disputas políticas no Brasil ao longo de 20 anos – de 1994 a 2014. O PSDB venceu duas eleições no primeiro turno, com FHC ganhando de Lula no primeiro turno – em 1994 e 1998. O PT venceu quatro vezes – 2002, 2006, 2010 e 2014 -, com Lula e Dilma Rousseff se elegendo presidentes do Brasil. 

Desde então, essa polarização foi desarticulada, com o PSDB entrando em crise aberta. Derrotado pela quarta vez sucessiva, o PSDB decidiu apoiar o impeachment da Dilma, somando-se à extrema direita na nova ruptura da democracia.

Começou ali a crise que levou o PSDB à sua crise terminal atual. O partido se distanciou da prática democrática que tinha assumido desde a sua fundação, quando havia disputado democraticamente a presidência do Brasil em 6 eleições. 

Enquanto que o PT se manteve fiel à democracia, lutou contra o impeachment da Dilma, que caracterizou como um golpe, por não ter nenhum fundamento legal. Por isso o PT, embora sofrendo os duros efeitos da repressão contra o partido, com a derrubada do governo da Dilma, a prisão do Lula, o impedimento do Lula ser candidato – tudo sem fundamento legal, como o próprio Judiciário reconheceu depois – seguiu resistindo.

Essa é uma diferença essencial, que explica por que o PT se fortaleceu, enquanto o PSDB caminhou para o seu fim. No entanto, há outra explicação, para compreender, antes disso, por que o PSDB perdeu quatro eleições, depois de ter ganho duas.

A razão está na opção do FHC quando, eleito presidente, optou pelo caminho trilhado já, naquele momento, pela social-democracia europeia, começando por Mitterrand, seguido por Felipe Gonzalez, de abandonar seu programa histórico, para aderir a uma modalidade de neoliberalismo.

O sucesso imediato de controle da inflação foi sucedido pelo fracasso pelo aumento das desigualdades e pela profunda recessão da economia. Não apenas FHC não conseguiu eleger seu sucessor, como o PSDB nunca mais ganhou eleições presidenciais.

Enquanto que o PT, com o governo do Lula, colocou em prática uma política anti-neoliberal, privilegiando as políticas sociais no lugar do ajuste fiscal; privilegiando os processos de integração regional ao invés dos Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos; resgatando o papel ativo do Estado, ao invés do Estado mínimo e da centralidade do mercado.

Foi um governo vitorioso, não apenas porque elegeu sua sucessora, mas também porque diminuiu as desigualdades sociais e regionais, a fome e a miséria, no país mais desigual do continente mais desigual do mundo. O PT se diferenciou assim amplamente dos governos do PSDB, tanto pelo conteúdo das suas políticas, quanto pelo sucesso político de conseguiu quatro triunfos eleitorais sucessivos para a presidência do Brasil. 

Os dois partidos representavam assim duas políticas antagônicas: neoliberais do PSDB, anti-neoliberais do PT. O fracasso do governo de FHC e o sucesso do governo do Lula são as explicações de fundo dos destinos futuros do PSDB e do PT.

Mas foi a partir do abandono da via democrática pelo PSDB que o partido se condenou, definitivamente, à decadência irreversível. Ao mesmo tempo, suas bases de apoio nas classes médias foram se radicalizando para a extrema direita. Nas manifestações na Avenida Paulista, seus líderes naquele momento – Alckmin, Serra – eram rejeitados. Eles tinham passado a preferir líderes de extrema direita, entre eles o próprio Bolsonaro.

O abandono da via democrática e a perda das bases de apoio na classe média levaram o PSDB à situação atual, apontada por Lula. Enquanto o PT, aprofundando seu compromisso com a democracia, reafirmando um programa de governo anti-neoliberal, projetou a imagem do partido e do Lula como as mais fortes no Brasil de hoje.


Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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