Carta ao Povo de Deus: uma sinuca para a CNBB

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Bispos que assinaram a Carta: dom Claudio Hummes, dom Edson Damian; Alberto Corrêa, dom Joaquim Giovani Mol, dom Zanoni Demettino Castro, dom Angélico Sandalo Bernardino, dom Erwin Krautler e dom Leonardi Ulrich (Da esquerda para direita – Fotos: reproduções)

Carta ao Povo de Deus: uma sinuca para a CNBB

Publicado por  Marcelo Auler em  27 de julho de 2020

A divulgação, na tarde de domingo (26/07), pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, da Carta ao Povo de Deus, endossada por 152 bispos – entre os quais o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes; o bispo emérito de Blumenau (SC), dom Angélico Sandalo Bernardino; o arcebispo de Feira de Santana (BA), dom Zanoni Demettino Castro; o bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), dom Edson Taschetto Damian; o arcebispo de Belém (PA), dom Alberto Taveira Corrêa; o bispo prelado emérito do Xingu (PA), dom Erwin Krautler; o bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), dom Joaquim Giovani Mol; e o arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral da CNBB dom Leonardi Ulrich – coloca a cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em uma sinuca de bico.

Idealizado, inicialmente, por alguns bispos entre aqueles que possuem “mais afinidade à dimensão social do trabalho pastoral”, o documento, em poucos dias, ganhou a adesão de boa parcela do episcopado brasileiro. Sua divulgação era prevista para quarta-feira, 22 de junho. Data significativa para a igreja que nela festeja Santa Maria Madalena, considerada a “Apóstola dos Apóstolos”.

A divulgação, porém, foi adiada, a partir da ideia de apresentar o documento à cúpula da CNBB. “Achamos por bem enviá-la primeiro, com a assinatura de todos nós, ao Conselho Permanente da CNBB, para apreciação e posterior divulgação, com o apoio institucional da Conferência”, explicou ao BLOG, no mesmo dia 22, um dos bispos que aderiu ao movimento pouco após ele ser iniciado. Na mesma mensagem, porém, deixou claro: “A publicação dessa Carta é uma necessidade urgente, porque urgente é a profecia, que denuncia e anuncia, em favor do sofrido Povo de Deus.

Oficialmente, o Conselho Permanente da CNBB só estará reunido no início de agosto. Havia a expectativa de que a Carta gerasse uma reunião extraordinária. Até domingo, porém, não surgiu nenhuma sinalização neste sentido o que pode ter provocado algum dos participantes a “vazar” o documento à jornalista. O fez, certamente, pensando em pressionar a direção da Conferência. Como a própria Mônica informou, “há um temor entre signatários do documento de que o setor conservador do órgão impeça a divulgação”

No cálculo de um religioso para o Blog, “de 10 a 20% dos bispos e uma proporção maior (talvez 35%) dos padres católicos brasileiros não só apoiam Bolsonaro como apoiam o governo atual e defendem mesmo o ódio, a intolerância e a violência. São, inclusive, contra o papa Francisco”.

Os percentuais podem não ser estes. Mas, sem dúvida, que a preocupação de não se chocar diretamente com a ala mais conservadora da igreja vem impondo freios à cúpula da CNBB. Ainda que faça cobranças ao governo e se posicione contrária a várias de suas políticas, suas críticas ficam aquém das que foram feitas, por exemplo, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Em especial nos anos 70.

Já a Carta ao Povo de Deus é forte. Difere totalmente das notas e pronunciamentos protocolares que a entidade tem divulgado. Marca um posicionamento contundente de uma grande quantidade de bispos brasileiros. Verdade que o episcopado brasileiro tem mais de 400 representantes entre os diocesanos e os eméritos, ou seja, aqueles afastados do dia a dia das dioceses. As 152 assinaturas, porém, tendem a crescer, ainda que encontre algumas resistências.

Confirmando a informação de que há muitos bispos que sequer foram consultados, no domingo à noite o Blog conversou com um que desconhecia o movimento. Na segunda-feira (27/07) ele admitiu, “li, gostei, mas não vou assinar por entender que ensejará perseguição à Igreja”.

Nos anos 70, documentos marcaram posição da igreja

A história mostra, porém, que o peso político de uma manifestação como esta independe do número de assinaturas que ele traga em seu bojo. Basta lembrar a repercussão, em plena ditadura militar, ainda no governo do general Emílio Garrastazu Médici (maio de 1973), do famoso documento “Eu ouvi os clamores do meu povo“.

Ele não teve, oficialmente, a chancela da CNBB como um todo. Foi assinado por apenas treze bispos e cinco religiosos da Regional Nordeste da CNBB. À frente deles, dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife), dom José Maria Pires, o dom Pelé, da Paraíba e dom Antônio Fragoso, de Crateús (CE).

Ainda assim, é visto até hoje como um marco do posicionamento da igreja no embate com a ditadura militar, tal como relata a mestra em Ciência da Religião pela PUC de Pernambuco, Maria Alexandra Prado de Oliveira, na sua dissertação de mestrado (2015) “Eu Ouvi Os Clamores Do Meu Povo”: Análise de um Documento Eclesial e suas Repercussões.

Nisso reside a importância da Carta agora divulgada. O mesmo religioso com o qual o BLOG conversou relembrou os documentos do passado ao comentar que a manifestação destes 152 bispos deixa a impressão de que “voltarmos à década de 70 quando bispos do Nordeste e depois também do Centro-Oeste, independentemente da CNBB, fizeram e publicaram dois documentos importantes (“Eu Ouvi os Clamores do meu povo” e “Marginalização de um Povo do Centro“, em 1973/74) contra o modelo de desenvolvimento sem justiça, na época da ditadura”.

Ele ainda acrescenta: “Este tipo de documentos exerce um papel fundamental de provocar reflexão e posicionamento no clero e no povo, e sempre conseguem ser mais claros e fortes do que esperar posicionamentos da CNBB com seus quase 400 bispos que para fazer qualquer documento tem de fazer muitos acordos e concessões. Hoje, penso, nunca será um documento profético”.

Realidade não comporta indiferença

Certamente, para a cúpula da CNBB, que precisa transitar entre conservadores, moderados e progressistas, seria melhor que o documento viesse a público sem passar pelo seu crivo. Tal como os documentos lançados em 1973. Sem obrigá-la a se posicionar, pois agora ela vive uma espécie de sinuca de bico.  Se recuar, poderá ser confundida com o bolsonarismo. Acatando a Carta, certamente receberá críticas do setor mais retrógrado do catolicismo. Não custa lembrar que entre os signatários de primeiro momento está o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, Cláudio Hummes, o bispo brasileiro mais próximo do papa Francisco.

Carta, que ocupa cinco laudas, tem 18 parágrafos, um total de 185 linhas – algo bem diferente das manifestações sucintas que têm surgido – bate em questões importantes, deixando claro o despreparo do governo para enfrentar as diversas crises que atormenta o país. E conclama “à unidade no respeito à pluralidade”:

“Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos”.

Entre outros pontos, o documento com as 152 assinaturas deixa claro que:

  • “O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” (…) A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República” (…)
  • “Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença” (…)
  • “As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro” (…)
  • “Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço” (…)
  • “Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo” (…)
  • “O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais” (…)
  • “No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros” (…)
  • “Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário” (…)

O documento foi bem recebido por leigos e religiosos de vários setores da Igreja, em especial os chamados “progressistas”. Estes trataram de divulgá-lo por suas redes sociais, uma vez que nenhum jornal da chamada imprensa tradicional, além da Folha de S.Paulo, noticiou-o. Gerou ainda comentários como um artigo escrito pelo monge beneditino Marcelo Barros – “A volta da profecia na voz dos cuidadores do povo de Deus –, onde ele expõe:

“Só podemos desejar que estas denúncias claras contra o desgoverno que nos assola possam continuar por posicionamento claro destes bispos sobre os setores da nossa própria Igreja que apoiam esta iniquidade ou simplesmente ao se omitirem nesta hora a legitimam. E que uma porção assim tão significativa do nosso episcopado possa levantar sua voz profética para deixar claro que por trás do feitor que tortura os escravos está o senhor que nem mora no engenho, mas é quem financia e sustenta este sistema”.

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